domingo, maio 8

Bibelô Surreal

...E estava Eu sentado, como uma peça decorativa em meu sofá.
Um Bibelô surreal, vidrado no aquário elétrico, sem perceber que Peixes boçais hipnotizavam-me e violentavam-me a mente, lapidando-me para poder “viver” de acordo com a ética e a moral vigente, ditadas por seres “antiéticos e imorais”.
O que? Não, não me acho acima do Bem e do Mal, pois, com efeito, digo-lhe que percebo melhor o Bem e o Mal.
O que? Arrogante e presunçoso?
Pode ser, porém reservo-me este direito. Por quê?
Porque não tenho pudores de dizer o que me vai ao coração, mas nem sempre foi assim.
Permita-me voltar a minha linha de raciocínio.
Dizia Eu, que estava sendo preparado (não acho de bom tom dizer “lobotomizado”, não é mesmo?) para ser um cidadão Cristão maniqueísta, submisso ao capital e de cultura igual a da média (medíocre soa ofensivo, não?).
Em troca teria o direito de escolher (ou votar, tanto faz) quem iria tornar minha vida mais árida, lógico que sei que todos mentem, porém é preciso acreditar, pois a esperança é burra, e pior recusa-se a morrer.
Ah, e se Eu conseguisse ser livre o suficiente, tinha também o direito de escolher minhas crenças. O Deus que me parecesse mais em moda eu o seguia. Claro que às vezes fica difícil seguir um Deus, não é mesmo?
Deixe-me lhe contar uma história:
Eu devia ter uns dezesseis ou dezessete anos, tínhamos acabado de mudar de bairro, minha família e Eu...
Não lhe falei? Pois é tenho família, pai, mãe, irmãos e os problemas; não deixa de ser engraçado, né? Os problemas (digo problemas para não dizer “Absurdos”) são tão constantes que os tomamos por parentes. Mas isso é outra coisa, falemos disso mais tarde, ok?
Bem vejamos, Eu estava a lhe falar sobre o que mesmo?
Ah, é mesmo! Então como era novo no bairro e não conhecia ninguém, e Eu também não sou dos mais sociáveis, não que seja Eu um “bicho do mato”, mas é que sempre achei que Eu me saia melhor como meu Amigo, todavia, isso não me impedia de conhecer pessoas ao longo da “trincheira”, oh desculpe-me a ironia, é que onde Eu morava não era, bem, assim um bom lugar para se sobreviver, sim, sobreviver, pois ninguém vive numa guerra, quem sobra é sobrevivente.
Peço-te que não se chateie, se me demoro com pormenores, mas se tem uma coisa que aprendi é colocar a mostra com mais nitidez os pequenos detalhes, só assim para se evitar mal entendidos, e é meu desejo sincero que me entenda bem, que não fique dúvidas a meu respeito e ao que penso, pois só assim sou livre, pois sou totalmente responsável por Mim e pelo que digo.
Mas vamos lá, numa dessas trincheiras, conheci uma garota, melhor dizendo ela me conheceu, pois sim, ela havia feito contato comigo, porque seus hormônios gritavam e ela precisava se achegar a mim, não por ser Eu uma pessoa “especial”, mas sim por ser novo no bairro, e não pense você que Eu me deprecio, pois sei bem que sou privilegiado em termos de aparência e porte físico, não espere hipocrisia com falsa modéstia de minha parte, pois não sou cego e tenho consciência de Mim mesmo.
Portanto é bem lógico chamar a atenção ao ponto de me transformar em troféu, bem admito que só inicialmente, depois passo a ser um Bibelô surreal.
Mas o fato é que essa garota chegou a Mim, pois isso aumentaria sua popularidade em meio a suas amigas igualmente fúteis, mas até entendo-as, pois somente queriam ser felizes, e serem admiradas causava-lhes certa felicidade, era como estar no topo, mas não entendo, porque do topo tudo o que se podia ver era a mediocridade se condensando, se solidificando.
Estranhamente essa garota convidou-me para ir a uma igreja evangélica.
Parei, pensei bem, olhei bem fundo em seus olhos e disparei.
- Quer saber? Este negócio não está dando certo, não posso mais!
- Que negócio? Do que você está falando Guto? O que não pode mais?
- Essa situação, você me carrega a todos os cantos só para me mostrar, e agora você quer me enfurnar em uma igreja, aposto e ganho que é só para demonstrar as suas “irmãs” como seu namorado é bonito e alto!
- Não, não é nada disso não, eu te amo!             
 - Você me ama? Tem certeza? Como pode me amar se não me conhece?
- Claro que te conheço Guto!
- Não, não me conhece, nada sabe sobre Mim, sobre o que me vai à Alma, sobre meus Pensamentos, sobre meus Medos, minhas Alegrias, meus Anseios, enfim nada sabe sobre Mim.
- Não é verdade, eu sei que te amo!
- Por favor, não insista nisso, você vai sofrer mais e sem razão, pois o que sente por mim é uma euforia, na verdade você ama me mostrar como se Eu fosse um Troféu, ou melhor, dizendo um Bibelô Surreal, como se eu fosse um aparato a ser admirado, mas saiba que sou muito mais do que isso, entendeu?
- Oh, Guto não fale assim comigo, não faça isso, eu te am...
- Chega, basta já me decidi, e no futuro você entenderá que foi o melhor a ser feito, Eu sou muito Complexo e você não entende esta complexidade! Adeus seja feliz em sua vida.
Virei de costas e comecei a caminhar a passos largos, quase correndo, pensando bem até tive pena, mas o que Eu podia fazer, Eu não posso ser infiel a mim mesmo, me trair e me anular, realmente foi melhor assim.
Afinal não sou nenhum Troféu muito menos Bibelô

Gutemberg de Moura


2 comentários:

  1. FOI UM GRANDEPRAZER TER ENCONTRADO POR AI SEU ESPAÇO DO QUAL TIREI AO LER SEU RELATO VERDADES CONTIDAS DENTRO DE VOCÊ QUE NÃO SE DEIXOU CONTAMINAR PELO EGO DE SER UM TROFÉU SURREAL DE AMOSTRA POR AI, MUITO BOM MESMO GUTTEMBERG...

    ResponderExcluir